25  Seres Aquáticos

 

Arrojamentos

É impressionante não só a quantidade e diversidade de objectos que podem “dar à costa”, como o que se pode aprender pela sua simples observação cuidadosa e registo.

Quando “dão à costa” seres aquáticos, tanto vivos como mortos, a designação adoptada é a de que houve um “arrojamento”. O arrojamento de seres normalmente pouco capturados é, obviamente, uma oportunidade muito importante para o seu estudo; daí que, um pouco por todo o mundo, se realizem registos cuidadosos destes acontecimentos. Em Portugal também está previsto esse registo, mas penso que as “fichas” em uso são algo antiquadas e seria fácil fazer melhor. Os registos são geridos pelo ICN, mas o acesso à informação é complicado, por vezes impossível mesmo para profissionais a trabalhar na área. Pergunto para que servem os registos, se as pessoas que os querem estudar não os conseguem obter? Na minha opinião, deveriam ser disponibilizados na Internet… Seria também útil que fossem criadas estruturas físicas e humanas para se proceder, como em alguns países (a Nova Zelândia é, provavelmente, o mais avançado neste campo; ver links), à correcta gestão dos mamíferos marinhos arrojados vivos, muitos dos quais é possível salvar e devolver ao mar, de modo a sobreviverem. Salvam-se centenas por ano, nos países onde essas estruturas existem!

http://www.zoomarine.com/Abrigos/abrigos_default.htm

http://www.wdcs.org/dan/publishing.nsf/allweb/7B52BDF1757212C980256D0A002B9135

http://www.whalerescue.co.nz/text/about.html

http://www.doc.govt.nz/Conservation/001~Plants-and-Animals/003~Marine-Mammals/index.asp

 

Quanto a outros seres que surgem trazidos pelas águas, há várias curiosidades interessantes a registar. Para além das algas e das conhecidas e apreciadas conchas, surgem frequentemente ovos de tubarão e de raia, cujo aspecto (inesperado, aliás) aparece em muitos livros especializados e que convém saber reconhecer.

http://www.elasmo-research.org/education/shark_profiles/batoids.htm

http://www.elasmo-research.org/education/shark_profiles/heterodontiformes.htm

 

Aves piratas

Nos cursos de Biologia e de Medicina Veterinária portugueses, as aves aquáticas não são quase nunca tratadas com profundidade. É pena, principalmente porque a Biologia e a Ecologia implicam compreender ecossistemas, e as aves aquáticas fazem obviamente parte dos ecossistemas aquáticos… Registo aqui, como forma de aguçar o apetite para este tema, que as aves aquáticas têm a penugem impermeabilizada por matéria gordurosa proveniente de glândulas apropriadas, para poderem molhar-se sem se tornarem demasiado pesadas para levantar voo novamente. Até aqui, nada de muito especial… Mas a fragata (Fregata spp.) é uma ave aquática, alimenta-se de peixes, mas não se pode molhar (as penas encharcadas, amolecidas e pesadas, não o permitiriam). Como pode esta ave alimentar-se? Por pirataria aérea! A fragata espera que outras aves pesquem, ataca-as no ar e obriga-as a largar os peixes; a sua extrema rapidez permite-lhe apanhar os peixes durante a sua queda, antes de chegarem à água, e assim sobrevive esta espécie, à custa do trabalho alheio.

http://www.rit.edu/~rhrsbi/GalapagosPages/Frigatebirds.html

 

Barragens e peixes migradores (dispositivos de transposição)

Talvez poucos saibam que nas barragens construídas em rios onde há peixes migradores em quantidade importante é comum existirem os chamados “dispositivos de transposição de barragens para peixes”, cujo objectivo é exactamente o de permitir a livre migração das espécies. A EDP tem não só barragens com estes sistemas (cerca de 30, o primeiro instalado em 1947), como também pessoas especializadas no seu desenho e construção. Os sistemas são basicamente de 4 tipos: as rampas, as escadas, as eclusas e os elevadores, todos eles propositadamente construídos para este fim específico.

Infelizmente, estes sistemas não têm normalmente uma eficiência muito elevada, o que até é biologicamente compreensível: as espécies têm de entrar em dispositivos algo estranhos, o que muitas vezes evitam fazer... e não é fácil convencê-las! Isso deve-se, em parte, à importação de sistemas que resultam noutros países, mas cuja adaptação a Portugal não foi ainda bem conseguida. Como em tantas áreas de trabalho, ainda há muito a fazer.

http://www.edf.fr/download.php4?coe_i_id=21833

http://www.enseeiht.fr/len7/gso/vision/passes.html

Para procurar informações sobre as barragens portuguesas:

http://cnpgb.inag.pt/gr_barragens/gbportugal/index.htm

Sobre as grandes barragens mundiais, consultar:

http://www.icold-cigb.org/

 

Comunidade de garças da Foz do Douro

A Foz do Douro, mesmo junto à cidade do Porto, é um local para observação de aves notável, havendo várias espécies que permanecem neste espaço e são facilmente observáveis das margens, embora dependendo da época do ano. A garça-real (Ardea cinerea) é uma das que até sem sair do carro se vêem ao passar junto do Clube Fluvial Portuese, nas zonas que ficam a descoberto na maré vaza, durante o Inverno. Com mais atenção, entre as numerosas gaivotas argênteas (Larus argentatus) observam-se algumas gaivotas-de-cabeça-preta (Larus melanocephalus).

 

 

Garças-reais (e outras aves) na Foz do Douro, a 10 m da margem e a talvez 2 km do centro da cidade

(junto ao Largo António Cálem, o largo do Clube Fluvial Portuense). Observáveis durante o Inverno.

 

http://www.geopor.pt/progeo/jornais/porto.htm

http://www.birdguides.com/html/vidlib/species/Ardea_cinerea.htm#

 

Comunicações entre espécies (hidroacústica)

Já há especialistas portugueses a trabalhar em bioacústica (sons biológicos) com fins científicos, nomeadamente no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, onde o trabalho incide particularmente em estudos de cetáceos. As chamadas vocalizações dos cetáceos são usadas para diversos fins, e algumas são típicas das espécies e talvez dos indivíduos. Trata-se de um tipo de investigação interessantíssimo e com muitos campos por explorar.

http://www.pmel.noaa.gov/vents/acoustics/whales/bioacoustics.html

http://www.killerwhale.org/fieldnotes/chat.html

 

Há gaivotas demais?

Na natureza, existe sempre uma forma de equilíbrio para as condições que se verificam no momento, e mais ou menos rapidamente a natureza aproxima-se desse equilíbrio... Mas o equilíbrio está longe de ser estável, antes está em constante mutação, pelo que o equilíbrio “ideal” não existe nem nunca é atingido. Sabemos que a acção do Homem altera os equilíbrios existentes, bastando, por vezes, a sua simples presença. Daí que não há nunca espécies a mais ou a menos, há as que a natureza, em cada momento, favorece e apoia, em detrimento das outras espécies, menos ajudadas e com menos hipóteses de sobreviver nessas condições. O que poderá haver a mais é alimento disponível para as gaivotas, o que as torna mais numerosas do que outras espécies... Se este novo equilíbrio prejudica outras espécies, então a solução passará pelo controlo das causas subjacentes. Se houver menos lixo acessível, alimentos perdidos, peixes desperdiçados, enfim, menos acesso a alimentos, o número de gaivotas diminuirá... Acrescente-se que este fenómeno se verifica um pouco por todo o planeta, não sendo de forma alguma exclusivo de Portugal. Já houve, noutros países e em Portugal, intervenções directas do Homem para tentar reduzir o nº de gaivotas, obviamente controversas e muito discutíveis. Sobre o programa de tentativa de controlo do número de gaivotas da ilha da Berlenga, é aconselhável ler e tentar formar uma opinião pessoal informada e completa.

http://redeciencia.educ.fc.ul.pt/berlenga/fort_gaivota/materiais.htm

 

Identificar ovos de aves

Mais uma vez, a Internet fornece ferramentas preciosas...

http://www.pma.edmonton.ab.ca/vexhibit/eggs/vexalta/exmen13.htm

 

Insectos aquáticos

O lodo de um rio, convenientemente filtrado, mostrará ser constituído em cerca de 2/3 por componentes minerais do lodo, e 1/3 de larvas de insectos aquáticos! A adaptação dos insectos aos vários habitats é verdadeiramente assombrosa: uma espécie de térmita foi já capturada a mais de 5750 metros de altitude, por uma rede presa a um avião; tanto no deserto como nos pólos e no fundo dos rios é possível encontrar insectos, alguns com soluções originais para a sua sobrevivência. Um exemplo é o género Syrphidae, que vive no fundo do rio, alimentando-se no lodo, mas possui um tubo, para respirar ar acima da superfície, com cerca de 13 cm… um verdadeiro adepto do snorkeling!

http://www-personal.umich.edu/~mjwiley/www516/doc_leonard_introduction.htm

 

Fico a dever esta outra curiosidade ao meu estimado Professor Doutor Teixeira da Silva, responsável pela disciplina de Microbiologia Geral, numa interessantíssima conferência para os alunos de Ciências do Meio Aquático do ICBAS, já há alguns anos. Existe um insecto aquático (ordem Ephemeroptera, espécie Paraleptophlebia cincta) em certos rios europeus que, como muitos, possui uma fase do seu ciclo de vida na água. Os ovos são depositados no rio e, quando eclodem, dão origem a uma forma espantosa (chamada subimago), uma espécie de “nave espacial” comprida que se auto-impulsiona saltando da superfície da água para uma árvore próxima e que se abre ao meio; saindo de dentro dela uma nova forma (imago), que prossegue o ciclo de vida, enquanto a tal “nave”, já inútil após apenas uns segundos de utilidade, cai na água de novo…

http://www.earthlife.net/insects/ephemer.html

 

Tartarugas marinhas

Existem 7 espécies de tartarugas marinhas, todas algo ameaçadas de extinção. Cinco espécies podem ser encontradas na ilha da Madeira, único local de Portugal onde as tartarugas são observadas com alguma frequência, embora apareçam esporadicamente noutros locais da costa continental portuguesa. São animais fascinantes, com algumas características peculiares muito curiosas. Por exemplo, a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), a maior de todas as tartarugas marinhas, pode atingir 2 metros de comprimento, pesar mais de 500 kg e atingir profundidades da ordem dos 1000 m. Todas as tartarugas marinhas nidificam em praias arenosas, no Atlântico sobretudo nas zonas tropicais da América Central e do Sul e um pouco em África.

Na Madeira existe desde 1997 o projecto Tartarugas Marinhas, que publica informação completa sobre estes animais e sobre os procedimentos a adoptar para ajudarmos à sua sobrevivência (todas as tartarugas marinhas mortas encontradas recentemente na Madeira tinham plásticos no estômago?) e para tratarmos convenientemente exemplares que possamos encontrar, tanto vivos como doentes ou mortos. O número de sites existentes mostra bem o quão interessantes são estes animais...

http://www.uma.pt/Investigacao/Tartaruga/body_index.html

http://www.tamar.org.br

http://www.turtles.org/marines.htm

http://www.deh.gov.au/coasts/species/turtles/

http://www.worldwildlife.org/turtles/index.cfm

http://www.ac-reunion.fr/pedagogie/cohfoucque/svt/paedoc/Html/

http://www.ecofac.org/Tortues/Index.htm

 

   

 

Tartarugas marinas visitáveis na sede do projecto TAMAR/IBAMA, praia do Forte, Bahia, Brasil.